Uma pequena história sobre “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan

Degenerando

Entre os dias 15 e 16 de junho de 1965, Bob Dylan gravou aquele que talvez seja o seu maior clássico: “Like a Rolling Stone”.

Enquanto a compra de Hi Lo Fi estava sendo efetuada, Bob trabalhava em Nova York na música que talvez seja sua canção mais famosa, “Like a Rolling Stone”. A palavra que usava com maior frequência quando falava da música era “vômito”. O extravasamento de desdém fora como um “vômito”, disse ele, criado como um texto no estilo de Kerouac, “que tinha uma estrutura muito ‘vomitífica’”. Ele também a descreveu, em seu modo obscuro, como “… uma coisa rítmica no papel totalmente sobre meu ódio constante direcionado a alguma coisa que era honesta. No final das contas não era ódio, era dizer a a alguém alguma coisa que eles não sabiam, dizer a eles que tinham sorte. Vingança, essa é uma palavra mais apropriada”. Em termos simples, era uma canção muito raivosa, nascida de uma fonte de ira que era em parte muito importante da personalidade incomum de Bob. De fato, “Like a Rolling Stone” poderia ser inclusive interpretada como misógina. O alvo era claramente feminino, e várias pessoas, inclusive Joan Baez, foram sugeridas como a inspiração específica. É mais provável que a canção visasse de modo geral as pessoas que ele percebia como “impostores”. O sucesso duradouro dessa música se deve em grande parte ao sentimento solidário de vingança que ela inspira nos ouvintes. Há uma certa ironia no fato de que uma das canções mais famosas da era folk-rock – uma era associada principalmente a ideais de paz e harmonia – seja sobre a vingança.
“Like a Rolling Stone” foi gravada em Nova York durante uma pequena tempestade de verão em 16 de junho de 1965. Bob Chegou ao estúdio da Columbia com o jovem músico de blues Mike Bloomfield, que tocaria a guitarra solo na faixa. Músico prodigiosamente talentoso, Bloomfield se dava muito bem com Dylan, que nem sempre era o mais fácil dos artistas com quem se trabalhar porque ele não gostava de ensaiar e não falava sobre o que estava fazendo. “Michael sabia que tudo o que Dylan queria era chegar e começar a tocar. Queria que todo o mundo, como se por um passe de mágica, entrasse logo após e tocasse uma música que nunca haviam escutado antes”, diz o amigo dos dois Nick Gravenites. “Michael conseguia identificar imediatamente o que Bob estava tocando, qual era o estilo, qual era o acorde.” O novato Al Kooper, de 21 anos, tinha sido convidado para a sessão por Tom Wilson. Ele teve a audácia de se colocar na frente do órgão Hammond, embora não soubesse tocá-lo. Paul Griffin, que tinha sido contratado para tocar órgão na sessão, foi para o piano. Joseph Mack tocou baixo e Bobby Gregg ficou na bateria. A música começou com o som de estalido seco da caixa de Gregg e rolou por quase seis minutos, como uma corredeira. Bob celebrou a descida rio abaixo de seu tema em quatro versos virulentos que culminavam em crescendos de som e emoção na ponte. “How does you feel”, cantou com ele um júbilo crescente.
Durante o playback, Bob pediu a Tom Wilson que aumentasse o volume do órgão de Kooper na mixagem. “Aí cara, esse sujeito não é organista”, contou-lhe Wilson.
“Olha aqui, não venha me dizer agora quem é organista e quem não é”, retrucou Bob, que estava começando a se cansar de Wilson. Bob estava usando um paletó escuro e a camisa estava abotoada até o colarinho. Em posição de sentido na sala de controle enquanto os outros relaxavam, ele tinha a presença imponente de um general, e agora que era uma genuína estrela ele tinha mesmo autoridade. Bob não fazia necessariamente mau uso de seu poder no estúdio, mas esperava que as pessoas fizessem exatamente o que ele queria. Se não se sujeitassem a seus desejos, estavam fora, como Wilson logo descobriu. “É só aumentar o som do órgão”, ordenou ele.
“Like a Rolling Stone” foi lançada como single em 20 de julho. Embora fosse duas vezes mais longa do que a maioria dos singles da época, com 5 minutos e 59 segundos, o que a tornava inadequada para tocar no rádio, subiu firme nas paradas e, notavelmente, teve enorme influência sobre os outros músicos. “Eu sabia que aquele cara era o cantor mais durão que já havia ouvido”, diz Bruce Springsteen, na época um adolescente de Freehold, New Jersey. John Lennon e Paul McCartney ouviram o disco no dia em que haviam se reunido para compor canções dos Beatles. “Parecia que não acabava mais. Era simplesmente lindo”, diz McCartney. “Bob mostrou a todos nós que era possível ir um pouco mais longe.”*

*Trecho do livro Dylan – A Biografia, de Howard Sounes.

Bob Dylan e “Subterranean Homesick Blues”

No dia 8 de março de 1965, Bob Dylan lançava o single “Subterranean Homesick Blues” nos Estados Unidos. A principal faixa do álbum Bringing It All Back Home deu a Bob seu primeiro Top 40 da Billboard, ocupando o 39º lugar. Segundo o músico, a letra não faz muito sentido, sendo apenas uma historinha que não significa coisa alguma (embora o livro Bound of Glory, biografia de Woody Guthrie, tenha um trecho reproduzido na canção, uma pequena lista de adjetivos para ser mais exato).

Já o vídeo de “Subterranean Homesick Blues” é considerado o primeiro clipe da cultura pop moderna. Originalmente gravado como um fragmento do documentário Don’t Look Back, de D. A. Pennebaker, o audiovisual do single começou a ser filmado em um jardim, nos fundos do Hotel Savoy (em Londres), mas Pennebaker e Dylan acabaram sendo expulsos do local por um policial. Do jardim, a dupla de artistas foi para um beco, registrando várias tomadas em tudo quanto era canto. Os cartazes que aparecem nas mão de Bob ao longo do vídeo foram escritos por Donovan, Allen Ginsberg e Bob Neuwirth – além do próprio Dylan. Vários erros de ortografia podem ser vistos nos textos, algo totalmente proposital e planejado (várias ironias podem ser percebidas a partir dos tais “erros”).

Assim como todo clássico de respeito, “Subterranean Homesick Blues” foi homenageado várias vezes. Tanto a letra da canção quanto o vídeo já foram parcialmente copiados ou serviram de inspiração para bandas como Jet, Radiohead, The Gaslight Anthem, entre tantos outros nomes. Mas vamos ao que realmente interessa, “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan.

Bob Dylan – The Picnic at Blackbushe Aerodrome 1978

Ouça a íntegra de um dos melhores shows da turnê mundial de Bob Dylan em 1978

Em 15 de julho de 1978, Bob Dylan se apresentou como headliner do festival Picnic at Blackbushe, no aeroporto de Blackbushe, em Camberley, Inglaterra. O público, estimado em mais de 200.000 pessoas, foi (e continua sendo) a maior audiência do músico em solo britânico.

O show também marcou o encerramento da primeira etapa de uma turnê mundial que duraria mais ou menos um ano, passando por países como Japão, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Alemanha, França, Suécia e Reino Unido. Destaque para a banda de apoio, formada por onze integrantes (sendo três backing vocals).

Abaixo, vocês ficam com o áudio completo do concerto The Picnic at Blackbushe Aerodrome 1978, que contou com Eric Clapton, Joan Armatrading, Graham Parker, Lake e Merger como atrações de abertura. Enjoy.

Setlist
My Back Pages (Instrumental)
Love Her With A Feeling
Baby Stop Crying
Just Like Tom Thumb’s Blues
Shelter From The Storm
It’s All Over Now Baby Blue
Girl From The North Country
Ballad Of A Thin Man
Maggie’s Farm
Simple Twist Of Fate
Like A Rolling Stone
I Shall Be Released
Is Your Love In Vain?
Where Are You Tonight? (Journey Through Dark Heat)
A Change Is Gonna Come (Carolyn Dennis no vocal)
Mr. Tambourine Man (Helena Springs no vocal)
The Long And Winding Road (Jo Ann Harris no vocal)
What Would We Do If No One’s Dreams Came True? (Steven Soles no vocal)
Gates Of Eden (acústico)
True Love Tends To Forget
One More Cup Of Coffee
Blowin’ In The Wind
I Want You
Senor (Tales Of Yankee Power)
Masters Of War
Just Like A Woman
Ramona
Don’t Think Twice (It’s Alright)
All Along The Watchtower
All I Really Want To Do
It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)
Forever Young (com participação especial de Eric Clapton)

Bis:
Changing Of The Guards
The Times They Are A-Changin’

Outras imagens do evento (via ukrockfestivals):