Uma pequena história sobre “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan

Degenerando

Entre os dias 15 e 16 de junho de 1965, Bob Dylan gravou aquele que talvez seja o seu maior clássico: “Like a Rolling Stone”.

Enquanto a compra de Hi Lo Fi estava sendo efetuada, Bob trabalhava em Nova York na música que talvez seja sua canção mais famosa, “Like a Rolling Stone”. A palavra que usava com maior frequência quando falava da música era “vômito”. O extravasamento de desdém fora como um “vômito”, disse ele, criado como um texto no estilo de Kerouac, “que tinha uma estrutura muito ‘vomitífica’”. Ele também a descreveu, em seu modo obscuro, como “… uma coisa rítmica no papel totalmente sobre meu ódio constante direcionado a alguma coisa que era honesta. No final das contas não era ódio, era dizer a a alguém alguma coisa que eles não sabiam, dizer a eles que tinham sorte. Vingança, essa é uma palavra mais apropriada”. Em termos simples, era uma canção muito raivosa, nascida de uma fonte de ira que era em parte muito importante da personalidade incomum de Bob. De fato, “Like a Rolling Stone” poderia ser inclusive interpretada como misógina. O alvo era claramente feminino, e várias pessoas, inclusive Joan Baez, foram sugeridas como a inspiração específica. É mais provável que a canção visasse de modo geral as pessoas que ele percebia como “impostores”. O sucesso duradouro dessa música se deve em grande parte ao sentimento solidário de vingança que ela inspira nos ouvintes. Há uma certa ironia no fato de que uma das canções mais famosas da era folk-rock – uma era associada principalmente a ideais de paz e harmonia – seja sobre a vingança.
“Like a Rolling Stone” foi gravada em Nova York durante uma pequena tempestade de verão em 16 de junho de 1965. Bob Chegou ao estúdio da Columbia com o jovem músico de blues Mike Bloomfield, que tocaria a guitarra solo na faixa. Músico prodigiosamente talentoso, Bloomfield se dava muito bem com Dylan, que nem sempre era o mais fácil dos artistas com quem se trabalhar porque ele não gostava de ensaiar e não falava sobre o que estava fazendo. “Michael sabia que tudo o que Dylan queria era chegar e começar a tocar. Queria que todo o mundo, como se por um passe de mágica, entrasse logo após e tocasse uma música que nunca haviam escutado antes”, diz o amigo dos dois Nick Gravenites. “Michael conseguia identificar imediatamente o que Bob estava tocando, qual era o estilo, qual era o acorde.” O novato Al Kooper, de 21 anos, tinha sido convidado para a sessão por Tom Wilson. Ele teve a audácia de se colocar na frente do órgão Hammond, embora não soubesse tocá-lo. Paul Griffin, que tinha sido contratado para tocar órgão na sessão, foi para o piano. Joseph Mack tocou baixo e Bobby Gregg ficou na bateria. A música começou com o som de estalido seco da caixa de Gregg e rolou por quase seis minutos, como uma corredeira. Bob celebrou a descida rio abaixo de seu tema em quatro versos virulentos que culminavam em crescendos de som e emoção na ponte. “How does you feel”, cantou com ele um júbilo crescente.
Durante o playback, Bob pediu a Tom Wilson que aumentasse o volume do órgão de Kooper na mixagem. “Aí cara, esse sujeito não é organista”, contou-lhe Wilson.
“Olha aqui, não venha me dizer agora quem é organista e quem não é”, retrucou Bob, que estava começando a se cansar de Wilson. Bob estava usando um paletó escuro e a camisa estava abotoada até o colarinho. Em posição de sentido na sala de controle enquanto os outros relaxavam, ele tinha a presença imponente de um general, e agora que era uma genuína estrela ele tinha mesmo autoridade. Bob não fazia necessariamente mau uso de seu poder no estúdio, mas esperava que as pessoas fizessem exatamente o que ele queria. Se não se sujeitassem a seus desejos, estavam fora, como Wilson logo descobriu. “É só aumentar o som do órgão”, ordenou ele.
“Like a Rolling Stone” foi lançada como single em 20 de julho. Embora fosse duas vezes mais longa do que a maioria dos singles da época, com 5 minutos e 59 segundos, o que a tornava inadequada para tocar no rádio, subiu firme nas paradas e, notavelmente, teve enorme influência sobre os outros músicos. “Eu sabia que aquele cara era o cantor mais durão que já havia ouvido”, diz Bruce Springsteen, na época um adolescente de Freehold, New Jersey. John Lennon e Paul McCartney ouviram o disco no dia em que haviam se reunido para compor canções dos Beatles. “Parecia que não acabava mais. Era simplesmente lindo”, diz McCartney. “Bob mostrou a todos nós que era possível ir um pouco mais longe.”*

*Trecho do livro Dylan – A Biografia, de Howard Sounes.

Bob Dylan e “Subterranean Homesick Blues”

No dia 8 de março de 1965, Bob Dylan lançava o single “Subterranean Homesick Blues” nos Estados Unidos. A principal faixa do álbum Bringing It All Back Home deu a Bob seu primeiro Top 40 da Billboard, ocupando o 39º lugar. Segundo o músico, a letra não faz muito sentido, sendo apenas uma historinha que não significa coisa alguma (embora o livro Bound of Glory, biografia de Woody Guthrie, tenha um trecho reproduzido na canção, uma pequena lista de adjetivos para ser mais exato).

Já o vídeo de “Subterranean Homesick Blues” é considerado o primeiro clipe da cultura pop moderna. Originalmente gravado como um fragmento do documentário Don’t Look Back, de D. A. Pennebaker, o audiovisual do single começou a ser filmado em um jardim, nos fundos do Hotel Savoy (em Londres), mas Pennebaker e Dylan acabaram sendo expulsos do local por um policial. Do jardim, a dupla de artistas foi para um beco, registrando várias tomadas em tudo quanto era canto. Os cartazes que aparecem nas mão de Bob ao longo do vídeo foram escritos por Donovan, Allen Ginsberg e Bob Neuwirth – além do próprio Dylan. Vários erros de ortografia podem ser vistos nos textos, algo totalmente proposital e planejado (várias ironias podem ser percebidas a partir dos tais “erros”).

Assim como todo clássico de respeito, “Subterranean Homesick Blues” foi homenageado várias vezes. Tanto a letra da canção quanto o vídeo já foram parcialmente copiados ou serviram de inspiração para bandas como Jet, Radiohead, The Gaslight Anthem, entre tantos outros nomes. Mas vamos ao que realmente interessa, “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan.

Bob Dylan – The Picnic at Blackbushe Aerodrome 1978

Ouça a íntegra de um dos melhores shows da turnê mundial de Bob Dylan em 1978

Em 15 de julho de 1978, Bob Dylan se apresentou como headliner do festival Picnic at Blackbushe, no aeroporto de Blackbushe, em Camberley, Inglaterra. O público, estimado em mais de 200.000 pessoas, foi (e continua sendo) a maior audiência do músico em solo britânico.

O show também marcou o encerramento da primeira etapa de uma turnê mundial que duraria mais ou menos um ano, passando por países como Japão, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Alemanha, França, Suécia e Reino Unido. Destaque para a banda de apoio, formada por onze integrantes (sendo três backing vocals).

Abaixo, vocês ficam com o áudio completo do concerto The Picnic at Blackbushe Aerodrome 1978, que contou com Eric Clapton, Joan Armatrading, Graham Parker, Lake e Merger como atrações de abertura. Enjoy.

Setlist
My Back Pages (Instrumental)
Love Her With A Feeling
Baby Stop Crying
Just Like Tom Thumb’s Blues
Shelter From The Storm
It’s All Over Now Baby Blue
Girl From The North Country
Ballad Of A Thin Man
Maggie’s Farm
Simple Twist Of Fate
Like A Rolling Stone
I Shall Be Released
Is Your Love In Vain?
Where Are You Tonight? (Journey Through Dark Heat)
A Change Is Gonna Come (Carolyn Dennis no vocal)
Mr. Tambourine Man (Helena Springs no vocal)
The Long And Winding Road (Jo Ann Harris no vocal)
What Would We Do If No One’s Dreams Came True? (Steven Soles no vocal)
Gates Of Eden (acústico)
True Love Tends To Forget
One More Cup Of Coffee
Blowin’ In The Wind
I Want You
Senor (Tales Of Yankee Power)
Masters Of War
Just Like A Woman
Ramona
Don’t Think Twice (It’s Alright)
All Along The Watchtower
All I Really Want To Do
It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)
Forever Young (com participação especial de Eric Clapton)

Bis:
Changing Of The Guards
The Times They Are A-Changin’

Outras imagens do evento (via ukrockfestivals):

O outro lado de Bob Dylan

No dia 9 de junho de 1964, Bob Dylan concluía as gravações do quarto LP de sua carreira

Degenerando Neurônios

Another Side of Bob Dylan foi gravado em Nova Iorque em uma extraordinária sessão de seis horas – entre 7h30 da noite de 9 de junho e 1h30 da madrugada do dia seguinte – logo depois de Bob ter voltado da Europa. A Columbia queria o disco para um congresso de vendas que aconteceria em breve e Bob ficou feliz em trabalhar rápido para agradá-los.

As músicas tinham sido compostas durante um longo período. Bob começou a trabalhar em “It Ain’t Me, Babe” na Itália. “Chimes of Freedom” nasceu na viagem de carro para a Califórnia. Outras músicas foram compostas no Café Expresso e na Grécia. O tema dominante era relacionamentos, e muitas das músicas – inclusive “To Ramona” e “Ballad In Plain D” – pareciam fazer referência específica a Suze.

Não havia música alguma no álbum que pudesse ser considerada de protesto, e o título, Another Side of Bob Dylan, parecia uma virada de página, embora a verdade fosse que Bob nunca vira a si mesmo como apenas um cantor de protesto.*

Degenerando Neurônios

Another Side of Bob Dylan, quarto LP do cantor, seria lançado no dia 8 de agosto de 1964.

* Trechos do livro Dylan – A Biografia, de Howard Sounes

O “Álbum Branco” dos Beatles

No dia 22 de novembro de 1968, os Beatles lançavam um de seus melhores álbuns, The Beatles (ou Álbum Branco, como ficaria mais conhecido). Após o sucesso de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a banda tinha tudo para continuar prosperando, mas a morte de Brian Epstein caiu como uma bomba na vida dos músicos.

Sem o grande amigo e empresário, John, Paul, George e Ringo embarcaram para Rishikesh, na Índia, em busca de um retiro espiritual com Maharishi Mahesh Yogi. Uma vez em terras indianas, o quarteo passou algum tempo isolado, aprendendo novas técnicas musicais com os amigos (Donovan e Mike Love, dos Beach Boys também estavam presentes). Isso fez com que cada faixa do disco tivesse características únicas, o que pode ser bom ou ruim, dependendo do ponto de vista.

Outro fator que mudou consideravelmente a visão dos músicos em relação ao mundo foi o álbum John Wesley Harding, de Bob Dylan, que contrastava com toda a psicodelia da época.

As sessões de gravação The Beatles foram tensas. As duas principais forças do grupo (Lennon/McCartney) não conseguiam entrar num acordo, enquanto George e Ringo exigiam mais espaço nas composições. A inclusão de Yoko no espaço sagrado do estúdio, o atrito entre John Lennon e os demais músicos, Ringo se sentindo desvalorizado (o baterista chegou a deixar a banda por um breve período, o que levou McCartney a tocar bateria em “Back in the U.S.S.R.” e “Dear Prudence”) – tudo isso serviu como pano de fundo para o processo de criação do Álbum Branco.

Além ter marcado o primeiro lançamento da Apple Records, o LP também foi o primeiro e único álbum duplo dos Beatles. Mesmo assim, muita coisa ainda ficou de fora da edição final, como “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam” (que apareceriam mais tarde em Abbey Road), “Child of Nature” (que alguns anos mais tarde se transformaria em “Jealous Guy”, faixa do álbum Imagine de John Lennon) e “What’s the New Mary Jane”. “The Long and Winding Road”, de McCartney, foi parar em Let It Be, “Jubille” virou “Junk” (do primeiro LP solo de Paul McCartney) e “Something”, de George Harrison, foi lançada em Abbey Road. Isso para citar apenas alguns exemplos.

The Beatles marca o começo do fim dos Beatles, que lançaria mais dois grandes álbuns antes do fim.

Dear Prudence

Ao longo do tempo, Mia Farrow inspirou grandes artistas, como Andre Previn, Frank Sinatra e Woody Allen. Já sua irmã é responsável por marcar para sempre a vida de John Lennon. Prudence conheceu os Beatles em 1968, na índia, durante o retiro espiritual da irmã.

Quando Prudence, sofrendo de depressão, se isolou no quarto, praticando meditação, Lennon compôs “Dear Prudence”, na tentativa de reanimá-la. E deu certo.

While My Guitar Gently Weeps

A inspiração para “While My Guitar” teria vindo dos ensinamentos do I Ching, sendo que as primeiras palavras, escritas por Harrison (“gently weeps”), foram descobertas por acaso ao abrir o livro em questão. A partir daí, a composição teve início.

Originalmente, “While My Guitar” foi gravada em formato acústico, com Paul McCartney tocando órgão (outtake lançado em Anthology 3)

Procurando salvar sua futura obra-prima, Harrison convidou o amigo Eric Clapton para dar uma força na gravação. Até então, nenhum outro músico tinha tocado com os besouros de Liverpool, a não ser os próprios Beatles.

“Os outros Beatles não iriam gostar!”, disse Clapton. “Não tem nada a ver com eles, a música é minha”. Essa foi a deixa de George Harrison.

Clapton usou uma Gibson Les Paul para fazer os solos. Anos mais tarde, ele mudaria para a Fender Stratocaster, que permanece como sua guitarra de estimação até hoje.

Happiness is a Warm Gun

Uma das canções mais complexas dos Beatles, e um dos temas mais pesados de Lenonn e McCartney. Complexo pelos vários ritmos dentro da mesma canção (chegaram a dividir a composição em dois fragmentos para, na hora da gravação, combiná-los e chegar a uma unidade).

As sessões de “Happiness Is a Warm Gun” levaram mais de 15 horas para serem concluídas, rendendo mais de 100 takes.

Blackbird

Escrita a partir das observações de Paul McCartney sobre os protestos políticos que se alastraram pelos Estados Unidos no final da década de 1950. Os direitos civis eram cada vez mais reivindicados pela população negra, culminando no Ginásio Central de Little Rock, cidadezinha localizada no Estado do Arkansas, que usou tropas de paraquedistas do exército estadunidense para garantir e proteger a entrada e o estudo de nove alunos negros.

Três elementos foram usados na gravação: Voz, violão e uma batida. Por incrível pareça, a tal batida não é o pé de McCartney marcando o tempo. O documentário The Beatles Complete revela que se trata da master da gravação, intencionalmente arranhada.

Piggies

A intenção de George era fazer uma simples crítica social. Mas a canção foi interpretada como um hino contra a polícia. Charles Manson se tornou o mais famoso dos desentendidos. Durante o assassinato de Sharon Tate, Rosemary e Leno LaBianca, garfos e facas foram usados simplesmente porque a música mencionava esses objetos.

Após o massacre feito pela Família Manson, as palavras “Pig” e “Piggy” foram escritas nas paredes com o sangue das vítimas.

Julia

A letra fala sobre a mãe de John Lennon, morta em 1958 depois de ser atropelada por um carro. John tinha 17 anos. Yoko Ono também é reverenciada, na frase “Filha do Oceano, vem me chamar” (o primeiro nome de Yoko significa “filho do mar” em japonês).

Apesar do credito à dupla Lennon-McCartney, trata-se uma composição apenas de John, que cuidou sozinho da gravação (marcando a primeira canção solo de Lennon).

Yer Blues

Uma letra extremamente suicida com referência ao Mr. Jones da música “Ballad of a Thin Man” de Bob Dylan (que documenta batalhas psicológicas). Lennon usou “Yer” ao invés de “Your” no título, para não ser levado muito a sério. A letra fala sobre o blues britânico de maneira bem humorada e sarcástica.

Helter Skelter

Uma das música mais barulhentas dos Beatles, composta por Paul McCartney. Ringo Starr e sua bateria seguem um ritmo frenético do começo ao fim. A biografia The Beatles: The Biography diz que Ringo fez 18 takes no dia 09 de Setembro de 1968, sendo que apenas o último foi usado na gravação. Esse último take também é registro de um dos maiores acessos de raiva do baterista, que grita: “Eu tenho bolhas em meus dedos!” logo no término da gravação (aos 4:23, para ser mais exato).

Revolution 1

John descreveu a sensação de ver tantas opiniões diferentes rolando na tal “revolução cultural” da época, questionando se ele estaria dentro ou fora de tudo isso. Os protestos contra a Guerra do Vietnã também teriam sido uma das principais inspirações da música.

Lennon acreditava que “Revolution” tinha potencial para ser lançada como single, mas Paul não gostou da ideia, dizendo que uma canção tão politizada nunca daria certo.

George também não concordou com Lennon, dizendo que a canção era muito lenta para ser um single.

Dezenas de versões foram feitas para “Revolution”. Entretanto, ao perceber que Paul não aprovaria a ideia do single, Lennon compôs uma versão bem mais barulhenta, que acabou virando lado b do single “Hey Jude”.

No final das contas, a banda incluiu as duas versões no disco. “Revolution #1″ seria a canção em formato simples e “Revolution #9″ um mix com palavras, overdubs e outros efeitos sonoros.

Aos que resistiram até o fim do post, o áudio completo de The Beatles, ou Álbum Branco, White Album, como você preferir. Enjoy.

“Nebraska”, o sexto álbum solo de Bruce Springsteen

Depois de cinco álbuns elétricos com a E Street Band, Bruce Springsteen dá início a um processo de gravação diferente, caseiro, usando apenas um gravador portátil de quatro canais. A intenção era escrever o maior número de canções possível para o álbum com sua banda de apoio. Ao perceber que tanto o peso como a melancolia de suas letras estavam sendo prejudicados pelas versões plugadas, Springsteen resolve fazer tudo sozinho, no formato acústico.

Como não poderia deixar de ser, a Columbia Records ficou apavorada com a ideia do rockstar lançar um disco apenas com voz, violão e gaita, sem potencial algum para grandes hits.

A história mudou quando, em 30 de setembro de 1982, Nebraska ganhou as prateleiras do mundo, recebendo elogios da crítica especializada e emplacando o single “Atlantic City” no US Top 10.

Born In The USA, o álbum seguinte, transformaria Bruce em um respeitado astro da música pop, com verdadeiros hinos como ”Dancing in the Dark”, “Glory Days” e a faixa-título. Mas foi com Nebraska que Springsteen mostrou que até o Boss podia rugir.

Na sequência, curiosidades, fatos e historias sobre todas as faixas de um dos discos mais importantes do mestre Bruce Springsteen.

Nebraska

A faixa de abertura fala sobre Charles Starkweather, um garoto de 19 anos que, em 1958, se envolve em uma onda de assassinatos. Ao lado de sua namorada, Caril Fugate (de apenas 14 anos), Charles mata 11 pessoas em Nebraska. A partir daí, a região passa a considerar filmes rebeldes e o rock and roll como responsáveis por essa nova geração de criminosos. Springsteen chegou a nomear a canção como “Starkweather”, mas por razões óbvias, o título foi alterado.

Atlantic City

Na época da composição do álbum, o jogo era uma atividade legalizada em Atlantic City. Por ser uma das cidades mais pobres do Estado de New Jersey, grandes cassinos foram construídos ao longo do tempo, principalmente no início da década de 1980, criando grandes pontos turísticos que constrastavam com a pobreza da cidade, que também era um paraíso para o crime organizado.

A primeira linha da faixa que dá título ap LP (They blew up the Chicken Man in Philly last night) foi inspirada em um artigo jornalístico que contava a história de Phill Testa (o “chiken man”), segundo grande mafioso da região (o primeiro era Angelo Bruno). Após o assassinato de Bruno, Testa foi morto por uma bomba colocada em sua varanda. O mandante teria sido Nicky Scarfo, que passa a controlar os criminosos da Filadélfia e o esquema dos jogos nos cassinos.

Mansion on the Hill

Escrita sob o ponto de vista de uma criança, a letra de “Mansion on the Hill” teve sua letra baseada nas memórias de Springsteen, que costumava visitar o pai em um sítio. Também foi a primeira composição do álbum, registrada no dia 3 de janeiro de 1982 em sua casa com o gravador de 4 canais. Outras canções também foram feitas nesse dia, totalizando a maior parte do repertório de Nebraska.

Curiosamente, “Mansion On The Hill” também é o nome de uma música de Hank Williams.

Johnny 99

Uma canção que fala sobre um homem que perde o emprego na fábrica de automóveis, fica bêbado e acaba matando o balconista do bar. Após ser preso, é condenado a 99 anos de prisão (daí o apelido Johnny 99).

Durante a campanha política de 1984, Ronald Reagan mencionou justamente essa canção como um “símbolo do orgulho americano”. Springsteen respondeu dizendo que Reagan não estava de fato ouvindo suas músicas, como esta que fala sobre um pobre trabalhador demitido que se transforma em um assassino.

Curiosamente, o juiz que sentenciou Johnny 99 se chamava John Brown, o mesmo nome mencionado por Bob Marley em “I Shot The Sheriff”.

Bob Dylan também tem uma música chamada “John Brown”, sobre um homem que vai à guerra e acaba retornando ferido.

Highway Patrolman

Narrada sob o ponto de vista de um policial rodoviário obrigado a lidar com os problemas do irmão, sempre em conflito com a lei. Foi após essa demo que Springsteen percebeu o potencial das canções que tinha em mãos para transformá-las em um álbum solo.

State Trooper

Elaborada durante um passeio de carro em Nova Iorque, também consta nos créditos finais do seriado A Família Soprano (Stevie Van Zandt, amigo de longa data de Springsteen e guitarrista da E Street Band, interpreta Silvio Dante na série).

Used Cars

Mais uma composição narrada a partir do ponto de vista de uma criança, é sempre apresentada pelo músico nos momentos em que ele compartilha recordações da infância. Segundo o próprio Springsteen, a faixa é uma excitante história de sua vida pessoal.

Open All Night

Originalmente chamada de “Wanda”, esta é sobre um homem que dirige a noite inteira só para visitar sua garota. Alguns trechos da letra foram usados em “Living On The Edge Of The World”, gravada em 1979 durante as sessões do álbum The River e finalmente lançada em 1998 no box Tracks.

É uma das várias canções de Springsteen que caracterizam imagens de carro. Curiosamente, o primeiro veículo de Springsteen foi um Chevy ’57 com chamas alaranjadas pintadas sobre o capô.

My Father’s House

A última das composições que foram parar em Nebraska. Assim como outros exemplos, foi baseada em memórias de infância ao lado da família, se aprofundando na distante relação que o músico tinha com o pai. Outras canções de Springsteen que fazem alusão a seu pai são “Factory,” “Independence Day” e “Adam Raised A Cain”.

Reason to Believe

Outra canção de Springsteen que faz referência às estradas de New Jersey, neste caso a Highway 31. “Spirit In The Night” e “Born To Run” também mencionam estradas do estado de New Jersey.

Finalmente, a íntegra de Nebraska.

A História de 9 Covers Gravados Pelo Oasis

De Slade a The Who, uma pequena lista com 9 versões gravadas pela antiga banda dos irmãos Gallagher.

01. “Cum On Feel the Noize”, um dos tantos clássicos do Slade. Lançado originalmente como single em fevereiro de 1973 e, sete meses depois, no álbum Sladest (recomendadíssimo).

A versão do Oasis surgiu como lado b do single Don’t Look Back in Anger, de 1996, fazendo jus às origens hoolingans de Liam e Noel.

02. Composta por David Bowie e Brian Eno, “Heroes” figura facilmente entre as mais belas canções do Camaleão do Rock. Lançada como single em outubro de 1977, marca um dos melhores momentos da trilogia berlinense de Bowie, contando a história de um casal apaixonado que vê separado pelo muro de Berlim. A inspiração para a criação do casal fictício foi Tony Visconti (produtor do disco homônimo) e sua namorada, Antonia Maas. Bowie só revelou esse pequeno detalhe em 2003, para a surpresa de Tony, que não sabia da história.

A versão do Oasis aparece como lado b do single D’You Know What I Mean, de 1997. Os vocais de Noel, obviamente, não alcançam a angústia interpretada por David Bowie, mas é sempre bom descobrir que uma de suas bandas favoritas curte o mesmo som que você.

03. Originalmente nomeada “Did Everyone Pay Their Dues?”, esse clássico da melhor banda de rock do mundo, os Rolling Stones, traz um Mick Jagger altamente inspirado após presenciar uma manifestação operária e estudantil que agitou Paris em maio de 1968. Há quem diga que a letra na verdade se baseia em um ato anti-guerra organizado por Tariq Ali, em Londres, no mesmo maio de 68. Fato é que “Street Fighting Man” continua sendo uma das canções mais politizadas dos Stones.

O Oasis apresentou sua versão no EP All Around the World, lançado em janeiro de 1998.

04. Uma das faixas acústicas do álbum Rust Never Sleeps, lançado em 1976 por Neil Young e Crazy Horse, ou a banda do cavalo louco. Como não poderia deixar de ser, “Hey Hey, My My (Into The Black)” nos brinda com um dos melhores momentos do deus canadense, que seguiu a cartilha de Bob Dylan e o LP Bringing It All Back Home de se produzir um disco (metade elétrico, metade acústico – não necessariamente nessa mesma ordem).

A versão do Oasis vem do petardo Familiar to Millions, primeiro lançamento ao vivo dos irmãos Gallagher.

05. Uma composição de Lennon e McCartney, lançada no álbum Magical Mystery Tour, dos Beatles – uma certa banda originária de Liverpool que os irmãos Gallagher endeusam.

A versão do Oasis para “I Am the Walrus” foi gravada ao vivo e consta no single Cigarettes & Alcohol, de outubro de 1994.

06. “Helter Skelter” integra o polêmico álbum branco dos Beatles, lembrado por servir como uma das principais influências de Charles Manson e sua seita do mundo da lua. Uma dica cinematográfica sobre o assunto, pouco difundida fora do circuito comercial, é o longa que leva o nome da música em questão, dirigido por John Gray e financiado pela TV estadunidense.

A versão do Oasis vem como lado b do single Who Feels Love, de 2000.

07. Um dos grandes hinos da rebeldia sessentista, ao lado de “Satisfaction”, dos Rolling Stones. “My Generation”, do The Who, foi merecidamente homenageada pelo Oasis como lado b do single Little by Little, de 2002.

08. “You’ve Got To Hide Your Love Away”, mais uma versão de Beatles. Conta como lado b do single Some Might Say, de 1995.

09. “Help”. Dos Beatles. Essa aqui vem de um dos volumes da trilogia de bootlegs acústicos da banda, intitulada Ultimate Acoustic Collection.

Play!

10. Agora, duas exceções à lista que merecem um breve relato. Noel Gallagher já era conhecedor do som de Tom Rowlands e Ed Simons há um certo tempo, e ficou sabendo que a dupla que formava o Chemical Brothers queria gravar algo com ele. Até que, pelos bastidores do Glastonbury Festival de 1995, acontece o aguardado encontro. Noel topa de imediato a proposta e adianta que a sonzeira teria que seguir o clima de “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles. O resultado deu tão certo que o título inicial do fruto da parceria era “Tomorrow Never Noels” (entendeu o trocadilho?).

Após o lançamento, em setembro de 1996, “Setting Sun” (título oficial do projeto) se tornaria o primeiro single dos irmãos químicos a alcançar o topo da parada britânica. A partir daí, foi um hit atrás do outro. A parceria voltaria a se repetir três anos depois, com “Let Forever Be”, outra faixa no estilo tomorrow-never-knows-de-se-fazer-música-eletrônica. Bem legal.