O “Álbum Branco” dos Beatles

No dia 22 de novembro de 1968, os Beatles lançavam um de seus melhores álbuns, The Beatles (ou Álbum Branco, como ficaria mais conhecido). Após o sucesso de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a banda tinha tudo para continuar prosperando, mas a morte de Brian Epstein caiu como uma bomba na vida dos músicos.

Sem o grande amigo e empresário, John, Paul, George e Ringo embarcaram para Rishikesh, na Índia, em busca de um retiro espiritual com Maharishi Mahesh Yogi. Uma vez em terras indianas, o quarteo passou algum tempo isolado, aprendendo novas técnicas musicais com os amigos (Donovan e Mike Love, dos Beach Boys também estavam presentes). Isso fez com que cada faixa do disco tivesse características únicas, o que pode ser bom ou ruim, dependendo do ponto de vista.

Outro fator que mudou consideravelmente a visão dos músicos em relação ao mundo foi o álbum John Wesley Harding, de Bob Dylan, que contrastava com toda a psicodelia da época.

As sessões de gravação The Beatles foram tensas. As duas principais forças do grupo (Lennon/McCartney) não conseguiam entrar num acordo, enquanto George e Ringo exigiam mais espaço nas composições. A inclusão de Yoko no espaço sagrado do estúdio, o atrito entre John Lennon e os demais músicos, Ringo se sentindo desvalorizado (o baterista chegou a deixar a banda por um breve período, o que levou McCartney a tocar bateria em “Back in the U.S.S.R.” e “Dear Prudence”) – tudo isso serviu como pano de fundo para o processo de criação do Álbum Branco.

Além ter marcado o primeiro lançamento da Apple Records, o LP também foi o primeiro e único álbum duplo dos Beatles. Mesmo assim, muita coisa ainda ficou de fora da edição final, como “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam” (que apareceriam mais tarde em Abbey Road), “Child of Nature” (que alguns anos mais tarde se transformaria em “Jealous Guy”, faixa do álbum Imagine de John Lennon) e “What’s the New Mary Jane”. “The Long and Winding Road”, de McCartney, foi parar em Let It Be, “Jubille” virou “Junk” (do primeiro LP solo de Paul McCartney) e “Something”, de George Harrison, foi lançada em Abbey Road. Isso para citar apenas alguns exemplos.

The Beatles marca o começo do fim dos Beatles, que lançaria mais dois grandes álbuns antes do fim.

Dear Prudence

Ao longo do tempo, Mia Farrow inspirou grandes artistas, como Andre Previn, Frank Sinatra e Woody Allen. Já sua irmã é responsável por marcar para sempre a vida de John Lennon. Prudence conheceu os Beatles em 1968, na índia, durante o retiro espiritual da irmã.

Quando Prudence, sofrendo de depressão, se isolou no quarto, praticando meditação, Lennon compôs “Dear Prudence”, na tentativa de reanimá-la. E deu certo.

While My Guitar Gently Weeps

A inspiração para “While My Guitar” teria vindo dos ensinamentos do I Ching, sendo que as primeiras palavras, escritas por Harrison (“gently weeps”), foram descobertas por acaso ao abrir o livro em questão. A partir daí, a composição teve início.

Originalmente, “While My Guitar” foi gravada em formato acústico, com Paul McCartney tocando órgão (outtake lançado em Anthology 3)

Procurando salvar sua futura obra-prima, Harrison convidou o amigo Eric Clapton para dar uma força na gravação. Até então, nenhum outro músico tinha tocado com os besouros de Liverpool, a não ser os próprios Beatles.

“Os outros Beatles não iriam gostar!”, disse Clapton. “Não tem nada a ver com eles, a música é minha”. Essa foi a deixa de George Harrison.

Clapton usou uma Gibson Les Paul para fazer os solos. Anos mais tarde, ele mudaria para a Fender Stratocaster, que permanece como sua guitarra de estimação até hoje.

Happiness is a Warm Gun

Uma das canções mais complexas dos Beatles, e um dos temas mais pesados de Lenonn e McCartney. Complexo pelos vários ritmos dentro da mesma canção (chegaram a dividir a composição em dois fragmentos para, na hora da gravação, combiná-los e chegar a uma unidade).

As sessões de “Happiness Is a Warm Gun” levaram mais de 15 horas para serem concluídas, rendendo mais de 100 takes.

Blackbird

Escrita a partir das observações de Paul McCartney sobre os protestos políticos que se alastraram pelos Estados Unidos no final da década de 1950. Os direitos civis eram cada vez mais reivindicados pela população negra, culminando no Ginásio Central de Little Rock, cidadezinha localizada no Estado do Arkansas, que usou tropas de paraquedistas do exército estadunidense para garantir e proteger a entrada e o estudo de nove alunos negros.

Três elementos foram usados na gravação: Voz, violão e uma batida. Por incrível pareça, a tal batida não é o pé de McCartney marcando o tempo. O documentário The Beatles Complete revela que se trata da master da gravação, intencionalmente arranhada.

Piggies

A intenção de George era fazer uma simples crítica social. Mas a canção foi interpretada como um hino contra a polícia. Charles Manson se tornou o mais famoso dos desentendidos. Durante o assassinato de Sharon Tate, Rosemary e Leno LaBianca, garfos e facas foram usados simplesmente porque a música mencionava esses objetos.

Após o massacre feito pela Família Manson, as palavras “Pig” e “Piggy” foram escritas nas paredes com o sangue das vítimas.

Julia

A letra fala sobre a mãe de John Lennon, morta em 1958 depois de ser atropelada por um carro. John tinha 17 anos. Yoko Ono também é reverenciada, na frase “Filha do Oceano, vem me chamar” (o primeiro nome de Yoko significa “filho do mar” em japonês).

Apesar do credito à dupla Lennon-McCartney, trata-se uma composição apenas de John, que cuidou sozinho da gravação (marcando a primeira canção solo de Lennon).

Yer Blues

Uma letra extremamente suicida com referência ao Mr. Jones da música “Ballad of a Thin Man” de Bob Dylan (que documenta batalhas psicológicas). Lennon usou “Yer” ao invés de “Your” no título, para não ser levado muito a sério. A letra fala sobre o blues britânico de maneira bem humorada e sarcástica.

Helter Skelter

Uma das música mais barulhentas dos Beatles, composta por Paul McCartney. Ringo Starr e sua bateria seguem um ritmo frenético do começo ao fim. A biografia The Beatles: The Biography diz que Ringo fez 18 takes no dia 09 de Setembro de 1968, sendo que apenas o último foi usado na gravação. Esse último take também é registro de um dos maiores acessos de raiva do baterista, que grita: “Eu tenho bolhas em meus dedos!” logo no término da gravação (aos 4:23, para ser mais exato).

Revolution 1

John descreveu a sensação de ver tantas opiniões diferentes rolando na tal “revolução cultural” da época, questionando se ele estaria dentro ou fora de tudo isso. Os protestos contra a Guerra do Vietnã também teriam sido uma das principais inspirações da música.

Lennon acreditava que “Revolution” tinha potencial para ser lançada como single, mas Paul não gostou da ideia, dizendo que uma canção tão politizada nunca daria certo.

George também não concordou com Lennon, dizendo que a canção era muito lenta para ser um single.

Dezenas de versões foram feitas para “Revolution”. Entretanto, ao perceber que Paul não aprovaria a ideia do single, Lennon compôs uma versão bem mais barulhenta, que acabou virando lado b do single “Hey Jude”.

No final das contas, a banda incluiu as duas versões no disco. “Revolution #1″ seria a canção em formato simples e “Revolution #9″ um mix com palavras, overdubs e outros efeitos sonoros.

Aos que resistiram até o fim do post, o áudio completo de The Beatles, ou Álbum Branco, White Album, como você preferir. Enjoy.

A História de 9 Covers Gravados Pelo Oasis

De Slade a The Who, uma pequena lista com 9 versões gravadas pela antiga banda dos irmãos Gallagher.

01. “Cum On Feel the Noize”, um dos tantos clássicos do Slade. Lançado originalmente como single em fevereiro de 1973 e, sete meses depois, no álbum Sladest (recomendadíssimo).

A versão do Oasis surgiu como lado b do single Don’t Look Back in Anger, de 1996, fazendo jus às origens hoolingans de Liam e Noel.

02. Composta por David Bowie e Brian Eno, “Heroes” figura facilmente entre as mais belas canções do Camaleão do Rock. Lançada como single em outubro de 1977, marca um dos melhores momentos da trilogia berlinense de Bowie, contando a história de um casal apaixonado que vê separado pelo muro de Berlim. A inspiração para a criação do casal fictício foi Tony Visconti (produtor do disco homônimo) e sua namorada, Antonia Maas. Bowie só revelou esse pequeno detalhe em 2003, para a surpresa de Tony, que não sabia da história.

A versão do Oasis aparece como lado b do single D’You Know What I Mean, de 1997. Os vocais de Noel, obviamente, não alcançam a angústia interpretada por David Bowie, mas é sempre bom descobrir que uma de suas bandas favoritas curte o mesmo som que você.

03. Originalmente nomeada “Did Everyone Pay Their Dues?”, esse clássico da melhor banda de rock do mundo, os Rolling Stones, traz um Mick Jagger altamente inspirado após presenciar uma manifestação operária e estudantil que agitou Paris em maio de 1968. Há quem diga que a letra na verdade se baseia em um ato anti-guerra organizado por Tariq Ali, em Londres, no mesmo maio de 68. Fato é que “Street Fighting Man” continua sendo uma das canções mais politizadas dos Stones.

O Oasis apresentou sua versão no EP All Around the World, lançado em janeiro de 1998.

04. Uma das faixas acústicas do álbum Rust Never Sleeps, lançado em 1976 por Neil Young e Crazy Horse, ou a banda do cavalo louco. Como não poderia deixar de ser, “Hey Hey, My My (Into The Black)” nos brinda com um dos melhores momentos do deus canadense, que seguiu a cartilha de Bob Dylan e o LP Bringing It All Back Home de se produzir um disco (metade elétrico, metade acústico – não necessariamente nessa mesma ordem).

A versão do Oasis vem do petardo Familiar to Millions, primeiro lançamento ao vivo dos irmãos Gallagher.

05. Uma composição de Lennon e McCartney, lançada no álbum Magical Mystery Tour, dos Beatles – uma certa banda originária de Liverpool que os irmãos Gallagher endeusam.

A versão do Oasis para “I Am the Walrus” foi gravada ao vivo e consta no single Cigarettes & Alcohol, de outubro de 1994.

06. “Helter Skelter” integra o polêmico álbum branco dos Beatles, lembrado por servir como uma das principais influências de Charles Manson e sua seita do mundo da lua. Uma dica cinematográfica sobre o assunto, pouco difundida fora do circuito comercial, é o longa que leva o nome da música em questão, dirigido por John Gray e financiado pela TV estadunidense.

A versão do Oasis vem como lado b do single Who Feels Love, de 2000.

07. Um dos grandes hinos da rebeldia sessentista, ao lado de “Satisfaction”, dos Rolling Stones. “My Generation”, do The Who, foi merecidamente homenageada pelo Oasis como lado b do single Little by Little, de 2002.

08. “You’ve Got To Hide Your Love Away”, mais uma versão de Beatles. Conta como lado b do single Some Might Say, de 1995.

09. “Help”. Dos Beatles. Essa aqui vem de um dos volumes da trilogia de bootlegs acústicos da banda, intitulada Ultimate Acoustic Collection.

Play!

10. Agora, duas exceções à lista que merecem um breve relato. Noel Gallagher já era conhecedor do som de Tom Rowlands e Ed Simons há um certo tempo, e ficou sabendo que a dupla que formava o Chemical Brothers queria gravar algo com ele. Até que, pelos bastidores do Glastonbury Festival de 1995, acontece o aguardado encontro. Noel topa de imediato a proposta e adianta que a sonzeira teria que seguir o clima de “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles. O resultado deu tão certo que o título inicial do fruto da parceria era “Tomorrow Never Noels” (entendeu o trocadilho?).

Após o lançamento, em setembro de 1996, “Setting Sun” (título oficial do projeto) se tornaria o primeiro single dos irmãos químicos a alcançar o topo da parada britânica. A partir daí, foi um hit atrás do outro. A parceria voltaria a se repetir três anos depois, com “Let Forever Be”, outra faixa no estilo tomorrow-never-knows-de-se-fazer-música-eletrônica. Bem legal.